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O time que empatou com o Fla no Uberabão: em pé, da esquerda para a direita, Gianvechio (preparador físico), Celso Roberto, Diron, Rafael, Vandinho, Tim, Aldeir; agachados, Ilton, Joãozinho Maradona, Serginho, Paulo Luciano, Nei
 
Grande parte dos quase vinte e sete mil pagantes no Uberabão ainda estava comemorando o gol de Serginho, que abria o placar para o Uberaba Sport, quando o goleador Nunes, supostamente impedido, virou uma bicicleta para empatar o jogo. Os jogadores do USC esboçaram reclamar, mas a autoridade do polêmico árbitro Roberto Nunes Morgado, o “Pantera Cor-de-rosa”, fez todo mundo recuar. Morgado foi um dos mais conhecidos e polêmicos árbitros da história do futebol brasileiro, famoso, entre outras coisas, por suas reações espalhafatosas em campo. Muito respeitado dentro de campo, validou o gol de Nunes e encerrou o primeiro tempo, correndo em seguida para o vestiário, sem dar papo pra ninguém.
 
O jogo estava aberto e um segundo tempo bem jogado poderia render uma vitória colorada contra o Flamengo. Mas Domingos Baroni sentiu que uma derrota podia ser fatal para as pretensões do Uberaba na Taça de Ouro e resolveu recuar. O jogo terminou mesmo no empate. Muitos torcedores sentiam que o USC poderia ter saído daquele jogo vitorioso.
 
A Taça de Ouro foi o nome oficial dado pela CBF para designar, em sua época de disputa, os campeonatos nacionais realizados entre 1980 e 1983, e posteriormente em 1985. Naquele ano de 1981, participaram os seis primeiros colocados do Campeonato Paulista; os cinco primeiros do Rio de Janeiro; os campeões e vices de Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul, Bahia, Pernambuco, Ceará e Goiás; apenas os campeões dos outros treze estados e o campeão e o vice da Taça de Prata do ano anterior, Londrina e CSA-AL. Para a segunda fase, subiram ainda os quatro primeiros colocados na primeira fase da Taça de Prata do mesmo ano. O Palmeiras, que foi mal no Campeonato Paulista daquele ano, começou o Brasileiro na Taça de Prata, mas subiu para a Taça de Ouro na segunda etapa, com Náutico, Bahia e Uberaba.
 
Antes da partida contra o Flamengo, o USC também havia empatado por 1 a 1 com o Colorado, no Paraná. Quatro dias depois do empate em casa contra o Fla, o Uberaba recebeu o Atlético Mineiro, para mais um empate em 1 a 1 (gol de Vandinho). E após dez dias, um novo empate, de novo no Uberabão, dessa vez em 0 a 0, contra o Colorado, de Curitiba, atual campeão do estado. Portanto, até a viagem para o Maracanã, o USC havia conquistado quatro pontos em quatro jogos. Pouco para um time que tanto prometia, mas louvável para um time tão guerreiro, que jogou contra forças nacionais. E assim, com uma campanha abaixo do esperado, o USC viajou até o Rio de Janeiro para enfrentar o time mais popular do país.
 
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O ingresso do jogo, relíquia do torcedor Creca
 
O Flamengo jogaria completo dessa vez. Modesto Bira mandaria pra campo Raul, Carlos Alberto, Luís Pereira, Marinho, o lateral Júnior; Vitor, Adílio, Tita, Nunes, Carlos Henrique e o craque Zico. O USC, treinado por Domingos Baroni, que havia jogado pelo Uberaba nos anos 60, entrou em campo naquela noite com Diron, Celso, Rafael, Tim e Aldeir; Vandinho, Joãozinho e Paulo Luciano; Netinho, Serginho e Nei. Passava das 21 horas quando o árbitro Oscar Scolfaro apitava o início do jogo. Mais de trinta mil rubro-negros empurravam o time. A geral estava tomada e gritava.
 
Em um pequeno canto da arquibancada, um grupo de torcedores do Uberaba Sport, que haviam chegado até ali em uma excursão, também cantava, feliz principalmente, por estar ali, naquele momento, vendo o time da sua cidade enfrentando um dos maiores clubes de futebol do mundo.
 
Logo no primeiro lance do jogo um chute cruzado de Nei, mostrando que o USC não estava ali a passeio. Pouco depois, o improvável. Cinco minutos de jogo, chute forte de Paulo Luciano de fora da área no canto do goleiro Raul. Flamengo 0, Uberaba 1. O Flamengo respondeu. Era questão de tempo para que o time do Rio empatasse, pensava quem ali estava. Só não imaginavam o que estava por vir.
 
Netinho avançou pela esquerda e achou Nei, que entrou na área, driblou o goleiro Raul e bateu, Serginho, livre, apenas empurrou. Em silêncio, a torcida do Flamengo presente no Maracanã não acreditava, assim como a pequena torcida colorada, que era um misto de alegria e perplexidade.
 
Após o fim do primeiro tempo, fogos de artifício preenchiam o céu de Uberaba. Muitos saíram às ruas para comemorar o resultado de um jogo que sequer havia terminado. Vários ainda estavam comemorando quando o Flamengo marcou dois gols e chegou ao empate e, entre falhas do USC e jogadas oportunas, acabou fazendo mais dois e vencendo a partida por 4 x 2, com a autoridade que todos esperavam. Depois, o USC ainda perderia para o Atlético, por 2 a 0.
 
Não importava. Durante quarenta e cinco minutos, o Uberaba foi superior ao time que seria campeão mundial no final daquele ano. Por um tempo de jogo, o Uberaba Sport Club silenciou a maior torcida do Brasil. Por um tempo, o Uberaba Sport foi imbatível.

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