13-07-uberabao edgard 1
Uma pausa nas obras para foto com Edgard Rodrigues da Cunha (de terno ao centro)
 
Edgard Rodrigues da Cunha pode não ter sido o melhor presidente do Uberaba Sport Club de todos os tempos. Mas, tenho certeza, foi o desportista uberabense de maior visão empresarial da santa e sagrada terrinha. Foi inigualável!
 
13-07-uberabao edgard 3Advogado brilhante, professor emérito, pecuarista evoluído, empresário de extraordinária visão (é dele a criação dos Produtos Ceres, Trilã, fábrica de ração animal, confecções...). Nos anos 60, adquiriu uma enorme área, final da avenida Leopoldino de Oliveira, confrontando com a Fazenda “Modelo” e o Quartel da Polícia Militar, no Fabrício, local conhecido como “pasto do Pereira”. Área de vegetação baixa, cheia de altos e baixos, íngreme e de serventia duvidosa. Edgard, visionário, ao adquirir o pasto, era presidente do USC. Tinha como sonho construir ali o estádio do “seu” Uberaba Sport.
 
E os meios para a construção? Edgard tinha em mente a venda de cadeiras cativas, área “vip”, assim como, daria ao clube, uma porcentagem sólida, na comercialização dos terrenos em derredor do futuro estádio, pois pretendia edificar no restante do terreno, uma moderna área residencial, a poucos metros do centro da cidade, além de outras fontes que serviriam para bancar as obras.
 
Edgard chegou a apresentar aos uberabenses o ousado projeto, do famoso arquiteto brasileiro Ícaro de Castro Melo, do tão sonhado estádio do Uberaba Sport Club. A renda da venda de “carnês” serviu para a primeira arrancada: o arcabouço das arquibancadas e o leito do futuro gramado, o fosso do campo e o contorno, em elipse, do estádio. Obra inacabada, Edgard ficou sozinho no empreendimento. Ciumeira? Sei lá...
 
13-07-uberabao 1
Construção das arquibancadas do Uberabão
 
Setores importantes do clube e a nossa sociedade cruzaram os braços e negaram apoio ao magnífico empreendimento. Resultado: triste, magoado, lágrimas nos olhos por não poder concluir sonho tão acalentado, Edgard conheceu o fenecer de tão dourado desejo. Por anos a fio, ficou aquele buracão no pasto do Pereira, tal qual filho enjeitado. Edgard chorava de tristeza, ainda que vendo prosperar as mansões em derredor da obra que, um dia, sonhou em doar ao “seu” amado Uberaba Sport.
 
Foram mais de cinco anos de total abandono. Edgard, saiu. Outros entraram. Presidentes se sucederam e o buracão lá. Inerte. Semi-morto. Ao seu redor, ruas e avenidas asfaltadas eram abertas. Ricas e modernas edificações surgiam. Florescia a Vila Olímpica. E aquele enorme fosso incrustado numa área de promissor progresso. Não se ouvia mais o roncar trepidante dos tratores em serviço, o estourar das bananas de dinamite nas rochas de pedra-sabão.
 
O “buraco” permanecia. Enquanto isso, a “oposição”, com a renda da gravação do hino do clube, realizava uma tímida reforma nas dependências do lendário Boulanger Pucci. O “esqueleto” no pasto do Pereira clamava por solução. Passivamente, a sagrada terrinha, nem dava bola...
 
13-07-uberabao bilhete
Bilhete para ajudar nas obras do estádio
 
Em 1967, ano do cinquentenário do USC, na festa de entrega dos troféus “melhores do ano” de Uberaba, o restaurante do “Palace Hotel” estava literalmente tomado por convidados e homenageados, entre eles, o prefeito João Guido. Jorge Zaidan, presidente da Associação dos Cronistas Esportivos de Uberaba, uma das maiores expressões do radiojornalismo regional, no discurso aos homenageados, ao final, lançou um oportuno apelo: “Prefeito, por amor a cidade, pelo nosso futebol, pela grandeza do nosso esporte, conclua as obras do estádio do Uberaba Sport Club, que estão há anos paralisadas; torne o estádio municipal e a cidade lhe será eternamente grata!”
 
Empolgado pela saudação do líder do jornalismo esportivo da cidade, João Guido não titubeou: “Se houver a doação da área, todos nós trabalhando em conjunto e nenhum uberabense vendo apenas a ‘banda passar’, terminarei o estádio!”. Delírio na plateia! Aplausos e vivas vindos de todos os cantos do salão.
 
13-07-uberabao edgard 2
Edgard (c) em 1997, quando o USC completou 80 anos, recebendo homenagem do presidente do clube, Paulo Gianvechio, e do presidente do Conselho, João Cunha
 
Edgard ainda detinha a escritura do terreno e não vacilou um instante sequer. De pronto, com altruísmo, cidadania e boa vontade, doou-o com uma condição: ver o estádio concluído. Obras reiniciadas imediatamente. João Guido elegeu-se deputado federal. Randolfo Borges Júnior, o prefeito seguinte, continuou as obras. Arnaldo Rosa Prata, o próximo prefeito, deu dinâmica sequência à conclusão da obra, faltando apenas o fechamento da “ferradura”, voltada para o centro da cidade.
 
Num sábado, 10 de junho de 1972, com a seleção brasileira tricampeã mundial e a seleção olímpica dos novos, o estádio João Guido, com capacidade para 30 mil pessoas quando concluído, era inaugurado. O nome dado ao estádio foi uma homenagem àquele que reiniciou as obras. Porém, o povo, na sua sabedoria, país vivendo momentos de euforia, tudo era “grandão”, não fez por menos e apelidou o estádio de “Uberabão”.

Parceiros 

anuncie boxe
 
sancelo
 
perfetto
 
corintiano
Scroll to top